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VIDA SE FAZ POR CONTÁGIO

Textos

A CASA DO MEDO


Minha casa fica no meio de um gramado, cercada de árvores e flores, ensolarada, pintada de branco por fora e por dentro.

Na casa há vida. Moramos nela meus pais, meus irmãos e eu. Somos alegres e barulhentos. Não é a casa que me dá medo, sei, é o caminho que a ela conduz _ árduo e cheio de perigos. Para mim, moro na Casa Branca. Fica no topo de uma ladeira. A calçada é estreita, e a rua que lhe dá acesso, recoberta por paralepípedos escorregadiços.

Se saio à rua tenho receio de despencar. Lugares escarpados me apavoram. Ao descer a ladeira acomodo minha coluna à gravidade, pendendo-a ligeiramente para trás, na busca de algum equilíbrio. O que mais me aflige, então, não é o medo de cair. Nessa postura, meus olhos não enxergam o chão. Tropeço.

Minha aflição não diminui quando percorro o caminho de volta. A coluna inclina-se para frente, vejo bem o solo, e encontro um equilíbrio relativo. Por que não me acalmo? Até hoje não obtive resposta para tal fenomenologia. Só me tranqüilizo quando chego ao topo, abro o portão de entrada, e entro ofegante do esforço da subida, ansiando pela planura, que para mim, é a única maneira de encontrar o equilíbrio original.

Em vez de original, quase falei normal. Tenho que rir! É normal uma casa toda plana, construída no topo de uma escarpa? Posso dizer que natural não é. O terreno da casa ficou plano, graças ao dinheiro que papai gastou na terraplanagem. Nunca poderei agradecê-lo o suficiente, pois, estar num lugar sem descidas (ou subidas) me traz paz. Dentro de nossa casa encontro meu ponto ideal de equilíbrio físico e espiritual.

Conheço os ruídos da Casa Branca. Escuto o ranger das portas que se abrem e fecham, e quando elas são batidas pelo vento. Conheço os passos das pessoas e os donos dos passos. Os ruídos dos empregados, os barulhos da cozinha e os da limpeza. Os latidos dos cachorros. É a casa da minha infância, onde nasci e cresci. Aqui ninguém morreu estamos todos vivinhos da silva, com a ajuda do Altíssimo, por isso não há fantasmas. Ainda.

Quando penso na casa me lembro de como gosto de detalhes. A farta madeira da qual ela é recoberta me dá uma sensação de aconchego, de calor. Nas pessoas amo mais os detalhes que o todo. Em papai o que mais gosto são as mãos enormes, fortes e peludas. Em mamãe os cabelos brancos, porque me dão segurança. Em meu irmão mais velho, João os olhos sempre risonhos, em Toni, o nariz arrebitado. Se a gente pudesse construir alguém com a soma dos detalhes, como seria esse alguém? Uma idéia divertida que qualquer dia vou colocar em prática, com meus pincéis.

Existem coisas que não gosto de enxergar. Nada que esteja além dos muros altos, de nosso relvado plano. A ladeira não é propriamente uma escarpa, é um despenhadeiro, por isso quase não saio. Os familiares trazem o que preciso _ tintas, telas, livros, comida e roupas. Mamãe e papai despediram os empregados, quando comecei a estranhá-los.

Um dos cachorros morreu, quando comeu o veneno dos ratos. Agora aqui só vivemos nós cinco, com o cão que sobreviveu, e com o fantasma do cachorro que morreu. O nome do fantasma é Toso, ele continuou com o nome de quando vivia.

Casa Branca está mais rica, até ganhou um fantasma. Não me importa que não seja um fantasma humano, mas, apenas o de um cão. Gosto dele mesmo assim. E ele gosta de mim.

Toso dorme durante o dia na porta de meu quarto. À noite passeia pela casa, seus passos toctoctocam os assoalhos encerados. Toso não arrasta correntes, e conserva no pescoço a antiga coleira . Será que fantasma de gente também dorme durante o dia? E se distrai com a chegada da noite ? Não sei responder...

No dia que comecei a tela, com os detalhes que mais gosto nos meus entes queridos, meus pais e irmãos ficaram felizes. Finalmente eu voltava a me ocupar com alguma coisa. Fazia tempo que não fazia nada, além de brincar com Toso.

Naquela tela iria pintar uma única pessoa, que seria a somatória dos detalhes. Comecei pelo fundo: o emadeiramento da sala, as aconchegantes vigas de ipê, o ambiente, a perspectiva, a luminosidade de tons marrons. A família me elogiava, Parece real, me diziam, e eu sentia que na tela tudo parecia real, o que me deixava imensamente contente. Amanhecia cantando, o que incomodava Toso, que começou a rosnar, como para me alertar que eu lhe atrapalhava o sono.

Numa manhã, eu observava criticamente a tela, quando percebi que os pedaços que pintara das pessoas se moviam. Os cabelos de mamãe sacudidos por um vento, as mãos de papai me acenando. E os olhos de João e o nariz de Toni, me sugaram, irresistivelmente. Acho que tentei fugir, não estou certa. Penso que Toso impediu minha fuga.

Quando dei por mim estava encerrada na tela. Meus cabelos negros e compridos esconderam os grisalhos de mamãe, minhas mãos se sobrepuseram às de papai, meus olhos escuros substituíram a tranqüilidade de lagoa  azul, que têm os olhos de João. Meu nariz de batatinha quebrou o atrevimento do nariz arrebitado de Toni. Estava inteirinha na tela, vestida com a camisola xadrez que usara na noite anterior, e que nem cheguei a tirar na pressa de rever o meu trabalho. E Toso plácido, dormindo aos meus pés.

Procuraram por mim o dia inteiro, durante uma semana, um mês, dois. Gritaram meu nome interminavelmente, Vitória, Vitória?! Eu ouvia, mas não podia me comunicar. Por que as pessoas não se comunicam telepaticamente, como Toso e eu fazemos? Chamaram a polícia, colocaram meu retrato na internete. Todos me deram por perdida. Achei muito antipático o tenente, quando falou, A senhorita desapareceu do mapa! Ninguém chorou nem se descabelou como pensei que fariam. Passado o susto, a casa voltou ao normal. Acho que ficaram aliviados.
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Novos empregados foram contratados. Chamaram a tela de Auto-retrato de Vitória.  Foi pendurada de frente para a janela, da qual avisto um pedacinho de meu amado gramado. Ninguém percebe que estou viva e prisioneira naquele quadrante. Já gritei de dar dor de garganta, mas, meu grito é mudo, ninguém me escuta, e se escuta, faz de conta que não.

Outras coisas mudaram na Casa Branca. Penso que também mudei, dentro da tela. Quando desisti de sair, me acalmei. Todos que olham para mim comentam como estou mais bonita e mais inteira.  É assim que me sinto.

João se casou e foi morar com a mulher em um bairro próximo ao nosso, segundo ouvi dizer. Têm uma pequena filha, que tem meu nome. A pequena Vitória vem muito à casa dos avós, corre pela sala, que se enche com seus gritinhos alegres. É engraçado, na minha sobrinha gosto de tudo, e não apenas de detalhes. Daria a vida para segurá-la em meu colo, só um minuto.

Há uma questão que permanece _ acho que o medo não está na casa, nem no caminho. Consultando minhas lembranças, penso que a casa não está pendurada num abismo, e a ladeira me parece até suave. Nunca ninguém além de mim se queixou da ladeira. Pena que eu não possa averiguar. Acho, assim, que o medo pode estar em mim.

Onde mora o medo? Uma pergunta, para a qual não tenho resposta. Uma pergunta que levo. Mas, para onde? Para o túmulo? Isso é que não, ninguém jamais vai enterrar uma tela tão bonita. Onde irei parar? Em outra parede? Quem sabe, uma parede na casa de Vick, quando ela crescer e tiver um monte de filhos? Este pensamento me alegra.




Eliane Accioly
Enviado por Eliane Accioly em 20/02/2009


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