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O SILÊNCIO do MAL
Título: O SILÊNCIO do MAL
Resenha de Eliane Accioly
Filme: Cairo 678.
Egito entre 2009 e 2010
Direção: Mohamed Diab.

Há um silêncio da ordem do sagrado que, enquanto possibilidade encontra-se na natureza humana, mas precisa de condições propícias da comunidade onde se vive para brotar e se desenvolver, fornecendo a homens e mulheres uma parte essencial de sua argamassa. O silêncio da ordem do sagrado não é próprio apenas aos místicos, pertence ao artista e à arte. E a arte é própria a cada ser humano, e a cada comunidade. Só vive o silêncio do sagrado quem tem voz própria, o que só a comunidade propicia, seja esta comunidade a família, as pessoas com quem se convive, ou a escuta privilegiada em uma boa terapia, ou a escuta de um grupo que se dispõe a pensar junto e compartilhar, outros.
O silêncio do mal é o cala a boca, próprio às ditaduras, à repressão da mulher em sua sexualidade, em seus direitos, e no direito dela à existência plena, de sentir, pensar, ter voz e criar a própria vida. Cairo 678 _ é um filme que trata do silêncio do mal.
Para fazer o filme, o diretor Mohamed Diab pesquisou acontecimentos na sociedade do Egito dos últimos anos, e principalmente no Cairo, cidade grande, bastante povoada, capital do país. No filme, três mulheres, Seba, Fayza e Nelly, sofrem de assédio e abusos sexuais.
Seba, jovem de consciência avançada, vem de família abastada. Por insistência do marido vai com este a um jogo de futebol. Ele não percebe sua mulher sendo estuprada no meio à euforia da festa de comemoração da torcida, e assim, não a defende. Ela engravida. Conta ao marido o que lhe aconteceu, e apesar de amá-la ele a abandona. Perde o bebê, indo viver sozinha. Quis denunciar o estupro, mas a própria mãe a impede, por temor ao escândalo. A mãe é a fachada, pois atrás dela está toda a família de Seba, assim como a repressão social milenar, que sobrevive no Egito e em outros países, nos tempos atuais. Torna-se ativista pelos direitos da mulher, consegue um programa na televisão, cuja audiência é principalmente feminina. Em seu programa busca ensinar como uma mulher pode se proteger da violência sexual dos homens, pensando junto com sua plateia. O programa acaba com uma pergunta que deve ser respondida por escrito, e todas que ali se encontram escrevem sua resposta no papel que lhes é fornecido. A resposta será lida apenas pela apresentadora, e as mulheres devem se identificar, não são respostas anônimas, protegidas, porém, pelo respeito da apresentadora.
Fayza é uma dona de casa obediente aos costumes do seu país, casada, tem dois filhos e usa véu. Assediada em seu trajeto diário de ônibus na volta do trabalho, passa a se negar ao marido, pois se cria nela o horror á figura do homem. Não há nenhuma condição, para ela, de contar ao marido ou a qualquer pessoa o que lhe acontece. Sedenta por escuta e diálogo passa a frequentar o programa de Seba. Entre as mulheres que ali comparecem em massa, Faysa também responde negativamente à pergunta da entrevistadora: Você já sofreu abuso sexual? Já foi estuprada?
. Nelly, aspirante a comediante, ou seja, à arte, se torna a primeira mulher na história do Egito a processar um homem por abuso sexual. Atacada diante de todos, na rua, em frente à sua casa, a única pessoa que corre em seu auxílio é sua mãe, que presencia a filha ser agarrada e arrastada por um motorista. O noivo acabava de deixa-la em casa, percebe o movimento e volta em ajuda. Os três juntos conseguindo amarrar o agressor, o enfiam no carro do noivo, levando-o a uma delegacia: o atacante ao vivo é a prova do crime. Nelly com muita luta, consegue fazer a denúncia e abrir o processo judicial. Impressiona a quem assiste ao filme, a resistência dos policiais em lavrar a queixa da moça. Assim como Seba, Nelly sofre a pressão de seus futuros sogros para retirar a queixa. A pressão social é tão forte que balança o apoio do noivo e da mãe, assim como balança a própria Nelly.
Assistindo o programa de Seba, Faysa começa a usar um estilete para se defender das bolinações e possíveis estupros, ferindo vários homens. Nos ônibus super lotados a contra agressão permanece em anonimato. A história dos ataques contra homens, porém, ganha fama e corre o Egito, trata-se de algo inédito, nunca ocorrido antes. Faysa acaba por contar à Seba, precisava falar com alguém, não é? E Seba jamais a denunciaria. As três personagens não poderiam deixar de se aproximar, pois Nelly também procura Seba, que a conduz à Faysa. No momento que passam a formar um grupo nada coeso, pois, surgem os conflitos entre elas, as três mulheres são literalmente coagidas por um investigador policial, que pretende abafar qualquer história de abusos sexuais contra as mulheres. Este homem, no entanto, nada pode fazer além de coagi-las, não há provas. Nelly e Seba, no entanto, percebem a importância da repercussão nacional do contra ataque literal e anônimo de Faysa, aquela entre elas, mais prisioneira das tradições. Faysa atacava seus agressores, pois, nada mais podia fazer. Ou será que haveria outros caminhos? Um rastilho de pólvora explodia entre aquelas mulheres, que lutavam para sair da passividade, cada qual com seus recursos.
O filme mostra de forma muito forte como um homem que tem uma mulher infeliz torna-se também infeliz. O marido de Seba a perde, pois voltando a procura-la e confessando seu amor, é recusado. Não por falta de amor, mas a mulher está muito  ferida, e não consegue perdoar, o que é verbalizado.
Em outra cena, ao abordar sexualmente outra mulher, o marido de Faysa é ferido num ônibus, pois, com a repercussão, outras mulheres passam a usar o recurso de ferir o agressor. Agressores homens e mulheres, na super lotação do transporte público permanecem anônimos. Faysa, porém, quando o marido chega carregado e ferido em casa, compreende perfeitamente o acontecido. E diz: Você podia ter pedido o divórcio, o que você não pode é forçar uma mulher naquilo que ela não quer.
Nelly comparece ao tribunal repleto de homens e de mulheres, incluindo Seba e Faysa. Todos no impasse da denúncia ser retirada ou mantida pela jovem. O encontro dentre as três traz um sopro de vida, esperança e a possibilidade de que, quem sabe, haveria outras formas, e não apenas repetir a violência marginalmente, mas denuncia-la, tira-la do anonimato e da marginalidade, oficializar uma situação milenar e sintomática: o silêncio mudo, cego e surdo. Nelly mantem a denúncia e é aplaudida de pé, no tribunal. Um ano depois, o abuso ou o assedio sexual torna-se crime no Egito. Ainda é rara ali, uma denúncia feminina.
No filme há vários dramas, mas ele também é um documentário, por isso posso contar o que contei, sem que perca a graça, para quem quiser assisti-lo.


Eliane Accioly
Enviado por Eliane Accioly em 16/03/2012
Alterado em 20/04/2012


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